O prejuízo de não falar sobre dinheiro antes de casar

Ilustrar a importância do diálogo sobre dinheiro e patrimônio antes do casamento, utilizando o filme História de um Casamento como referência às consequências de decisões financeiras e familiares não planejadas

Scarlett Johansson e Adam Driver em História de um Casamento (2019).

 

Planejamos a festa, a casa e a lua de mel com uma atenção quase obsessiva aos detalhes, no entanto, uma das decisões mais importantes do casamento costuma ficar fora da conversa: o que fazer com o dinheiro.

É curioso pensar que duas pessoas possam planejar uma vida inteira juntas sem saber exatamente como a outra pensa sobre dinheiro.

Escolhem onde gostariam de morar, discutem se terão filhos, planejam viagens, carreiras e até a decoração da futura casa. Mas perguntas bastante concretas costumam ficar para depois. Quanto você ganha? Tem dívidas? Como pretende se aposentar? Prefere poupar ou gastar? E o que acontecerá com aquilo que cada um já possuía antes da relação?

Sei que não são perguntas românticas. Talvez por isso sejam tão frequentemente adiadas.

Mas o dinheiro não desaparece de um relacionamento apenas porque decidimos não falar sobre ele.

Uma pesquisa da Serasa, realizada em 2025 em parceria com o Instituto Opinion Box, revelou que 53% dos entrevistados apontavam o dinheiro como a principal causa de brigas nos relacionamentos. Ao mesmo tempo, embora 65% afirmassem conversar abertamente sobre finanças, quase metade admitiu já ter escondido algum problema financeiro do parceiro.

Há uma contradição interessante nesses números. Acreditamos que falamos sobre dinheiro, mas talvez falemos apenas daquilo que é confortável revelar.

E o que fica fora da conversa pode custar caro. No mesmo levantamento, 41% dos entrevistados afirmaram já ter tido o nome negativado em razão de dívidas relacionadas a um parceiro, enquanto 45% relataram ter permanecido com dívidas após o término de uma relação.

Ao que parece, o dinheiro ocupa um espaço enorme na vida dos casais, embora continue sendo tratado como um assunto capaz de contaminar o afeto.

 

Dinheiro nunca é só dinheiro

A maneira como lidamos com dinheiro diz muito sobre a nossa história, inclusive sobre aquela que começou antes de qualquer relacionamento.

Para quem cresceu em uma família financeiramente instável, acumular pode significar segurança. Para quem experimentou a escassez, gastar pode representar liberdade, conquista ou uma maneira de compensar aquilo que antes não podia ter.

Há quem encontre tranquilidade na casa própria e quem prefira a liquidez dos investimentos. Algumas pessoas consideram natural compartilhar absolutamente tudo depois do casamento. Outras não abrem mão de preservar alguma independência econômica.

Duas pessoas com rendas muito parecidas podem ter visões radicalmente diferentes sobre dinheiro. E não há necessariamente algo errado nisso.

O problema é descobrir essas diferenças quando já existe um financiamento para assumir, uma empresa para administrar ou uma dívida que ninguém sabia que existia.

Talvez um dos maiores equívocos seja acreditar que conversar sobre patrimônio demonstra falta de confiança. Penso justamente o contrário. É preciso alguma confiança para revelar dívidas, reconhecer desigualdades financeiras e admitir que nem sempre duas pessoas que se amam desejam organizar o dinheiro da mesma maneira.

 

O que significa, afinal, construir juntos?

A expressão é bonita, bastante utilizada e raramente explicada.

Construir uma vida a dois significa compartilhar toda a renda? Dividir igualmente as despesas, mesmo quando um ganha muito mais que o outro? Manter contas separadas? E aquilo que for adquirido durante o casamento, a quem deverá pertencer?

Não existe uma única resposta correta. Cada família tem sua própria realidade, suas prioridades e uma ideia particular sobre o que considera justo.

Além disso, a vida tem pouca consideração pelos planos que fazemos para ela.

Um dos dois pode abandonar a carreira para cuidar dos filhos, enquanto o outro continua acumulando patrimônio. Uma herança pode financiar a compra da casa da família. Alguém pode decidir empreender, assumir dívidas ou investir suas economias em uma empresa que, alguns anos depois, valerá muito mais do que no início.

São acontecimentos bastante comuns, mas cujas consequências patrimoniais nem sempre são compreendidas pelo casal.

E aqui está uma questão que considero particularmente importante: aquilo que parece justo enquanto o relacionamento vai bem pode ser interpretado de maneira completamente diferente quando surgem dificuldades.

É precisamente por isso que a organização patrimonial não deveria depender apenas da boa vontade ou da expectativa de que tudo continuará como está.

 

O silêncio também tem consequências jurídicas

Existe uma certa fantasia de neutralidade quando um casal evita falar sobre patrimônio. Como se não escolher fosse uma maneira de não interferir na relação.

Juridicamente, não é.

No Brasil, a comunhão parcial é o regime de bens que, como regra, se aplica ao casamento quando não existe escolha válida de outro regime, ressalvadas as hipóteses legais de regime obrigatório. Na união estável, também é a regra patrimonial aplicável, no que couber, quando não há contrato escrito dispondo de maneira diferente.

E aqui vai um segredo: a comunhão parcial, que de longe parece uma solução perfeitamente equilibrada, de perto pode se revelar bastante problemática para determinadas famílias.

Em outras palavras, quando o casal não faz determinadas escolhas, a lei faz por ele.

Somos capazes de passar semanas comparando taxas de financiamento, escolhendo investimentos e negociando contratos comerciais, mas nem sempre dispensamos o mesmo cuidado às regras que vão organizar o patrimônio de uma família inteira.

E algumas decisões são muito mais simples quando tomadas no momento adequado. Um pacto antenupcial, por exemplo, deve ser celebrado antes do casamento. Alterar o regime de bens depois exige um procedimento judicial, com requisitos próprios e preservação dos direitos de terceiros.

Por isso, a conversa sobre “meu bem, meus bens” merece acontecer antes que a vida se encarregue de tomar certas decisões.

 

Planejamento matrimonial significa casar pensando em separar?

Há uma desconfiança em torno do planejamento matrimonial e para muitos casal, o tema é tabu, mas pensarmos que a maioria dos divórcios acontece justamente por problemas financeiros, organizar o patrimônio antes de casar é um ato de amor e de cuidado com a relação.

Quando alguém contrata um seguro de vida, ninguém presume que esteja planejando morrer, mas basta mencionar um pacto antenupcial para surgir a suspeita de que o casamento já começa com prazo de validade.

A comparação é reveladora, porque sugere que o verdadeiro tabu talvez não seja o dinheiro em si, mas aquilo que somos obrigados a reconhecer quando começamos a falar sobre ele: que duas pessoas podem se amar e, ainda assim, ter interesses econômicos diferentes, e que o casamento, por si só, não elimina as desigualdades financeiras entre elas.

A independência patrimonial pode continuar sendo importante mesmo quando existe um projeto de vida em comum, e aquilo que parece justo para um nem sempre será justo para o outro.

É muito mais confortável dizer “vamos construir tudo juntos” do que colocar os pingos nos is e discutir abertamente o que isso realmente significa.

Na minha experiência como advogada, percebo que muitas pessoas só se preocupam com a organização do patrimônio quando o relacionamento já está em crise, e a essa altura a conversa costuma ser outra: o que antes poderia ter sido uma escolha conjunta passa a envolver expectativas frustradas, interesses em conflito e consequências jurídicas que nem sempre podem ser desfeitas.

É por isso que não vejo o planejamento matrimonial como uma preparação para o divórcio, mas como uma forma de evitar que decisões importantes fiquem entregues ao improviso.

Tampouco se trata de um assunto reservado às grandes fortunas. Boa parte das escolhas patrimoniais mais importantes acontece justamente enquanto uma família ainda está construindo aquilo que terá no futuro.

Falar sobre dinheiro não diminui o romantismo de uma relação. Estranho, a meu ver, é estarmos tão dispostos a compartilhar a vida com alguém e, ao mesmo tempo, hesitarmos em discutir as responsabilidades econômicas que essa escolha envolve.

Talvez a melhor hora para falar sobre dinheiro seja justamente quando ele ainda não é motivo de conflito.

Giovana Virginio

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